Endometriose além da dor: o impacto invisível na rotina, no humor e na autoestima


A imagem mostra uma mulher que tem endometriose.

Era uma sexta-feira qualquer quando me vi de pernas abertas para uma estranha examinar meu corpo por dentro.

Era para ser só mais um exame de rotina, mas naquele dia descobri que havia um bicho-papão crescendo em mim.

Meu corpo já vinha mudando há meses. Eu estava tendo ótimos resultados na academia e, de repente, não estava mais. A barriga sempre inchada, uma dor absurda na lombar, fadiga constante que nem pré-treino resolvia, dores de cabeça insistentes e, claro, cólicas sem explicação.

Desenvolvi síndrome do intestino irritável, passei a ter intolerância ao glúten e à lactose, dormir mal e viver irritada por qualquer coisa. Achei que era o trabalho. Que minha rotina estava pesada demais.

Até aquele dia.

“Você pode ter endometriose”, disse a médica.

“Endo o quê?”

Saí do consultório com medo. Eu não fazia ideia do que era aquilo. E, quase nove meses depois, ainda sinto que sei tão pouco quanto a maioria das pessoas.

Aqui não vou explicar a doença — isso você encontra no Google. Quero falar do que ninguém vê.

Agora mesmo, enquanto escrevo, estou sentada no sofá, ouvindo Taylor Swift, aparentemente tranquila. Mas por dentro, estou um caos.

Tenho uma cirurgia marcada para daqui a dois meses e não sei o que esperar. Sinto uma impotência difícil de explicar. Uma aflição constante. A sensação de que, por mais que eu me cuide, vou conviver com sintomas invisíveis pelo resto da vida.

Há dias e dias.

Tem dias em que acordo bem e consigo treinar como antes — sempre gostei de treinar pesado, de sentir cada músculo trabalhando até o limite. Mas, na maioria das vezes, mal consigo ficar em pé.

Tem dias em que estou animada. Em outros, acordo de mau humor sem motivo. Às vezes, lido bem com o estresse. Em outras, tudo me desestabiliza em questão de horas.

Precisei adaptar meus treinos de perna e glúteo porque minha lombar não aguenta mais. Passei a tomar dipirona com frequência para lidar com as dores. E até tarefas simples, como estender roupa, me deixam exausta a ponto de meu relógio marcar como treino por causa dos batimentos acelerados.

E tem o calor. Sempre fui calorenta, mas a endometriose me jogou numa espécie de mini-menopausa. Hoje, sinto ondas de calor o tempo todo, mesmo quando ninguém mais sente.

mulher com endometriose

Foi assim que cheguei a um cirurgião especialista. Levei uma lista de sintomas, mas nem precisava.

“E tudo isso sem contar o que você não fala pra ninguém, né?”, disse ele.

Eu chorei ali mesmo.

Ele explicou que tudo o que eu sentia vinha da doença ou do tratamento. Tratamento que, até então, era só anticoncepcional contínuo. Foi ele quem indicou a cirurgia, mas só para a endometriose profunda. A adenomiose, no meu caso, só se resolve com a retirada do útero — algo que, aos 31 anos, ainda não decidi se quero.

A cirurgia da endometriose será por vídeo, com pequenas incisões. O médico remove os focos da doença onde estiverem. Dependendo da localização, pode envolver retirar parte do intestino, os ovários ou até o útero.

No meu caso, talvez seja necessário mexer no intestino. Só saberei na hora.

“Mas é uma cirurgia simples, né?”, já ouvi.

Claro. Super simples lidar com a possibilidade de perder parte de um órgão vital.

Esse é um dos lados invisíveis da endometriose: ela te limita em silêncio, mas parece que você não pode reclamar. Afinal, poderia ser pior.

E eu sei disso. Agradeço por isso todos os dias.

Mas só eu sei como é conviver com algo crescendo dentro de mim sem cura. A endometriose é crônica. Não existe tratamento que faça desaparecer de vez.

“Mas você vai operar, vai ficar tudo bem”, dizem.

Não é bem assim. Os focos podem voltar. A doença pode reaparecer em outro lugar. É como uma raiz que continua crescendo.

O tratamento também não acaba:
• dieta anti-inflamatória (sem glúten e lactose);
• exercícios frequentes;
• anticoncepcional contínuo ou DIU;
• e os sintomas… esses continuam.

Às vezes me sinto doente, mas sem algo concreto para “curar”.

Como uma peça num jogo que nunca termina.

E o mais chocante: não é raro. No Brasil, mais de 7 milhões de mulheres vivem com isso. Mas fomos ensinadas a normalizar a dor. A achar que cólica incapacitante é “coisa de mulher”.

Não é. Só demoramos a descobrir.

E agora seguimos tentando lidar com o que a medicina ainda não resolve. O tratamento hoje busca aliviar sintomas — não impedir o avanço da doença.

E isso é o que mais dói: saber que vou conviver com esse bicho-papão por tempo indeterminado.

A cirurgia está marcada. Mas, no fundo, sei que ganhei um inimigo persistente.

Cada dia me sinto em um corpo diferente. De manhã, minhas roupas servem. À noite, não fecham. O inchaço muda tudo.
Tenho náuseas frequentes por causa do antidepressivo, que ajuda a segurar o emocional. E às vezes parece que deixei de ser eu para ser a doença.

Evito o espelho. Evito sair. Evito pessoas.

A academia, que eu amava, virou esforço. Comprei equipamentos para treinar em casa, tentando não desistir completamente.

Já chorei muito. Hoje, nem isso consigo mais.

Sigo no automático, com a sensação de que, em algum momento, vou precisar abrir mão de partes da minha vida.

E quase ninguém sabe.

Porque no rosto, tem um sorriso. Mas, por dentro, existem focos de dor. Aflição. Angústia. Medo. Exaustão. Desesperança.

Se você também vive com isso, não escrevo para te desanimar.

Escrevo para dizer: você não está sozinha.

Eu sei.

E, de alguma forma, a gente continua.

Cabeça erguida.

Vivendo… do jeito que der.


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