Qual legado você deixará quando partir?

by - julho 06, 2020


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A morte é uma das poucas certezas que em vida cultivamos. Cedo ou tarde, jovem ou velho, rico ou pobre, todos morreremos. Não adentrarei a discussão da vida espiritual após a morte. Apenas suscitarei uma reflexão: Qual legado você deixará quando partir?

 Entenda a partida como a morte do corpo físico, pois não espero que você parta totalmente. Partir totalmente representaria a ausência de legado do indivíduo nesse plano e, por consequência, o vácuo existencial, ao menos no plano terrestre. Presumo que esse desfecho seja nada empolgante para você, para mim ou qualquer outra pessoa.

Muitas pessoas, quando partem, deixam seus nomes impressos na história da humanidade pela arte, outros pela ciência, outros pela projeção financeira... São formas bem eficazes de fazer o seu nome e estratos do seu pensamento reverberarem por muito tempo.

No entanto, nem todos são atores, escritores, cineastas, grandes empresários, grandes filósofos, cientistas ou possuem qualquer outro posto que os posicionem nos mais relevantes anais da história humana. Caso você se enquadre em uma das categorias mencionadas, parabéns! Você tem grande predisposição para deixar legados positivos para os seus companheiros de espécie.

E se você não se enquadrar, isso não significa que deixará uma folha em branco quando se for. Seu legado não precisa ecoar por toda a humanidade. Porém, é preciso que ele faça sentido e inspire ao menos uma pessoa.

No ano de 2016, quando a minha tia Arnaldina partiu, deixou também um grande sentimento de perda em meio aos seus vários amigos e familiares. A sua partida não nos deixou incólumes. Seu nome não ficou gravado nos anais da história humana. Mas seu legado foi deixado aos que lhe eram próximos.

Descreverei um pouco do legado deixado por Arnaldina: Benevolência, honestidade, humildade, solicitude, caráter, serenidade... incorporando o papel de mãe, tia, amiga ou “conhecida”; nunca se mostrou hesitosa em distribuir sorrisos contagiantes, palavras amáveis e motivantes, capazes de inundar o ambiente e despertar o melhor em cada pessoa que se expusesse à sua agradabilíssima presença.

Para ser sucinto, diria que sua tônica sempre foi fé. Mas nunca uma fé vazia. Não é muito custoso ter fé quando tudo lhe é favorável. Mas Arnaldina sabia exercer a fé também em tempos conturbados. Palavras de motivação dos familiares e amigos para lhe dar forças para enfrentar o câncer pareciam ser dispensáveis: Arnaldina parecia ser a própria personificação da motivação.

Quando seu esposo José faleceu, ela já se encontrava doente. Com este revés cheguei a pensar que ela fraquejaria, que o sorriso que sempre trazia estampado no rosto empalideceria e que esse golpe a colocaria prostrada frente ao câncer. Não poderia estar mais enganado.

Não me prolongarei falando da doença que a abateu fisicamente, para não dar a falsa impressão de que o câncer a derrotou. Isso mesmo: o câncer jamais a derrotou. Embora ele tenha levado à morte de seu corpo, sua fé, sua bondade, sua essência, seus bons exemplos, sequer foram arranhados e isso tudo transcende sua morte física.

Estou convicto de que aqueles que conviveram com Arnaldina se tornaram pessoas melhores. Talvez nem tenham se dado conta disso, pois depois de um tempo convivendo com ela, praticar o bem se tornava algo tão natural, tão trivial que nem nos dávamos conta de termos evoluído.

A religião católica era algo que ela exercia plenamente, algo que ia muito além de frequentar assiduamente as missas ou exercer o ministério da eucaristia. Conviver com ela deixou muito claro para mim que o maior exercício da religião é o amor ao próximo.

Tia Dina, que é como eu a chamava, foi para mim mais do que um exemplo: uma inspiração. Sempre me apoiou em todas as etapas da minha vida, esteve ao meu lado nos momentos mais críticos, quando outros se afastariam.

Chorar no dia em que ela faleceu e no dia em que foi sepultada, foi para mim, e para aqueles que a amavam, inevitável. Uma dor difícil de dissipar. Um questionamento incessante e latejante ecoava na minha mente: por que alguém tão boa teve de partir tão cedo?

Posso responder a este questionamento usando as próprias palavras que tia Dina usou para acalmar um amigo que certo dia a visitou e que ficou estarrecido com a debilidade do seu corpo. Naquela ocasião, ela disse: São os desígnios do senhor. Isso mesmo, ela estava certa, são os desígnios de Deus.

Se formos usar os bons exemplos que Arnaldina deixou ao longo de seus 60 anos de vida, devemos adotar o seu sorriso descompromissado e sua fé incondicional. Chorar é inevitável, mas, deixemos o choro de lado e encaremos a vida com um sorriso no rosto e com total motivação como tia Dina sempre fez.

Seguirei tentando pautar as minhas ações nos mesmos princípios em que ela pautava. E que a vida siga sem derramar de lágrimas, mas com o belo e singelo sorriso que a senhora sempre trazia estampado no rosto.

Arnaldina era uma pessoa comum. Sim, acredito que sim, e espero que o seu perfil seja bastante prosaico. Quanto mais “Arnaldinas” existirem no mundo melhor ele será. Quanto mais pessoas encararem os percalços com os quais nos deparamos com fé, animação, um sorriso no rosto, mais leve a vida será.  Este é parte do legado que Arnaldina deixou para os seus parentes e amigos.

Inspire ao menos uma pessoa em vida. Ao inspirar um indivíduo, não pense que o seu legado se perderá quando este partir. Se for um legado positivo, ecoará por outras gerações e, embora o seu nome possa ser esquecido, a sua assinatura estará sempre presente na vida de alguém.


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4 Recados

  1. Uma belíssima história de vida para a vida! É esse o entendimento que tiro desse belo texto que aparentemente falaria sobre morte e doença. Mas,onde há felicidade e o sorriso é uma constante, a tristeza é uma variável que não prevalece. Por mais desesperadora que a ocasião pareça ser, nunca perca o seu tom radiante e sorriso de felicidade! Encontre a felicidade em momentos difícil também ou ao menos não deixe ela esmaecer completamente de você. Por mais Arnaldinas no Mundo!

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