Galinhas na pandemia

by - julho 08, 2020

pandemia, novo normal, novo mundo


Nestes dias da Grande Reclusão, encontrei refúgio na roça. O sinal da internet não é lá essas coisas, mas o ar é puro, não há muros e vizinhos e a vontade de ir ao supermercado é bem menor aqui do que se estivesse na cidade.  

Durmo bem mais cedo do que no Antigo Normal e o breu da noite tem deixado os pesadelos vibrantes, inusitados. Em algumas madrugadas, faço viagens de helicóptero ao lado de Darth Vader e passeios clariceanos ao poleiro das galinhas. 

As galinhas, por sinal, viraram personagens constantes nesse meu refúgio. Às tardes, escapando por buracos da tela, elas vêm ciscar na horta e, do alpendre emprestado que transformei em escritório, corro, furiosamente, para afugentá-las com gritos e pedras atiradas de um velho estilingue. 

Sem contar os meios-dias plenos de sol, quando as visito em seus domínios, nos fundos do terreno, levando-lhes algum caroço de mamão ou laranja, bagaço de acerola ou cobiçados restos de cebola. Um esforço para que não avancem sobre alfaces e tomates de nossa anfitriã, e concentrem-se em comer a ração que lhes damos lá, entre as malhas de metal. 

E o que dizer dos galos? Eles trincam a noite espessa e me fazem acordar, sempre com a incômoda pergunta: “– Meu Deus, que dia é hoje?”. Uma pergunta aterradora para nós que, acostumados às agendas e dependentes de relógios, agora nos alarmamos com barulhos de trovão e com a mistura de cores no crepúsculo, compartilhados inúmeras vezes e transformados em pauta de telejornais.

Assim, entre sobrecarregado ou à deriva nas redes, me percebi pesquisando sobre elas e, entre milhões de resultados retornados sobre as pintadinhas e aquelas ao molho pardo, li em algum canto que galináceas criadas em cativeiro podem desenvolver um vírus cem vezes pior do que o coronavírus. 

No mesmo texto do obscuro site (será fake news?), um “especialista” entrevistado asseverou que o melhor para todo o mundo é realmente soltar as galinhas. Libertando-as, livramo-nos todos de mais um cativeiro. 

Assim, sem a disposição de Clarice Lispector para filosofar sobre galinhas, aposentei o estilingue. Mas, como explicar essa capitulação à dona da casa? Como ficará a galinhada sem temperos e quiabos da horta? 

Dilemas do Novo Normal!

Pedro Borges Pimenta Jr.

Professor do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais




*Texto publicado pelo projeto Leitores escrevem, clique aqui e saiba mais!

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