O isolamento isolou meu sonhos

by - julho 13, 2020

isolamento pandemia quarentena

Já deixei de sair porque prefiro um dia chuvoso, com uma xícara de chocolate quente e um bom livro em mãos. Já deixei de sair para ver um filme qualquer, que me fizesse rir ou chorar, pensar ou apenas tentar desvendar crimes.


Já deixei de ver o mundo lá fora por me sentir suficiente aqui dentro, isolada em mim mesma, trancada em minhas próprias convicções incertas e costumes bizarros de ler tudo sobre a vida de um autor, conversar com o celular e fazer anotações em qualquer lugar.


No entanto, nunca esperei que um dia eu fosse querer sair do meu próprio mundo e, pior, seria impedida de tal ato. Hoje, em plena pandemia, causada pelo novo coronavírus mas que poderia muito bem ter sido causada por nós mesmos, sinto-me vazia.


Talvez eu tenha sido suficiente um dia. Talvez eu tenha me bastado na maior parte de minha tão estranha e confortável vida, em minha presença desde sempre. E, confesso, que o vazio que invade agora pode nem ser culpa minha... mas acho que me esgotei de mim mesma.


O isolamento veio de uma forma súbita, sim, mas não chegou a me arrebatar de imediato. Minha vida seguiu pelos mesmos trilhos: o trabalho remoto permaneceu, as saidinhas escassas já não estavam lá grande coisa, as idas ao mercado sempre se resumiram a uma única vez no mês, o cara da farmácia aparece de vez em quando e os entregadores de lanche também...


Então, o que mudou?


Minha lente. Meus olhos. Meus anseios. Minha visão. Minha perspectiva. Minha inocência? Talvez. Minha mania de querer me bastar. Minha ânsia de não precisar de ninguém... minhas crises existenciais. Meus medos. Minhas manias. Meus choros encurralados pelos sentimentos sufocados...


Tudo mudou.


O isolamento não isolou apenas a mim, mas meus sonhos também. O isolamento me isolou em mim mesma, e eu, que nunca quis sair do meu pequeno esconderijo, de repente me vi desesperada, exprimida e totalmente sem saída.


Se é aquela coisa de querer ter o que não pode, eu não sei. Mas sei que atingiu aqui, ali, lá, acolá... atingiu um mundo inteiro. Eu é que demorei a perceber – ou a aceitar – que aqui estava mudando também.


Agora minha xícara de chocolate quente já perdeu o gosto, esfriou. A chuva que bate na janela só me faz lembrar do que se passa lá fora... e eu fico aqui, me escondendo entre a mobilha enquanto me faço de estátua das circunstâncias que acusam meu coração de mole.


O que me impede de tentar me impedir definitivamente?


A única certeza de que se eu parar aqui, o tempo continuará sem mim. Então eu continuo simplesmente porque quero sair. Talvez de dentro de mim, mas, no fundo, eu sei que eu mesma sou meu próprio aprisionamento...


Ser livre nem sempre é estar lá fora.


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2 Recados

  1. Eu amei esse texto. Vc escreve muito bem e fiquei sentida com suas palavras. S2 S2

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  2. Você é realmente boa com as palavras, como disse a moça do comentário acima rsrs
    Esse texto me tocou, porque acho que to nessa tbm <3 <3

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