Humanidade e vírus: o que há em comum?

by - junho 24, 2020

coronavírus, pandemia, quarentena

Que similaridade poderia haver entre os seres humanos e a mais simples das criaturas? Talvez não possa nem ser chamado de criatura, se utilizamos a corrente científica que assume que um ser vivo precisa de uma organização minimamente celular. O que não podemos negar são os estragos que uma simples molécula de DNA ou RNA pode fazer.


Os vírus são difíceis de combater, devido às suas propriedades mutagênicas. Contudo, para muito além das dificuldades enfrentadas pela ciência ao lidar com eles, há uma reflexão que gostaria de suscitar: temos algo em comum com estes agentes infecciosos com os quais digladiamos.


Tal como os vírus, nossa organização social nos impele à proliferação desenfreada, ainda que essa proliferação destrua o nosso hospedeiro. Quem seria nosso hospedeiro? Existem pessoas que sugam as outras em uma relação não mutualística, mas este tipo de parasitagem foge ao escopo deste texto.


De maneira geral, todos nós nos hospedamos no planeta terra e estabelecemos com nosso planeta uma relação, por vezes, bastante degradante. Quem já assistiu ao filme The Matrix (1999), talvez se recorde de uma fala do agente Smith, uma máquina, reproduzida a seguir:


Eu gostaria de compartilhar uma revelação que tive durante meu tempo aqui. Veio a mim quando tentei classificar a sua espécie. Percebi que vocês não são realmente mamíferos. Todo mamífero neste planeta desenvolve instintivamente um equilíbrio natural com seu meio ambiente; vocês não fazem isso. Vocês se mudam para uma área, se multiplicam e se multiplicam até que todos os recursos naturais sejam consumidos. A única forma de sobreviverem é se propagando para outra área. Há um outro organismo neste planeta que segue o mesmo padrão: os vírus. Seres humanos são uma doença, um câncer neste planeta. Vocês são uma praga, e nós somos a cura.
 

O que o agente Smith disse é um retrato do comportamento de muitos humanos. Um vírus não faz projeções sobre o futuro do seu hospedeiro. Ele apenas se replica indefinidamente, ainda que este comportamento ocasione o colapso do organismo que infecta, levando-o a outro organismo. Isso não está muito distante do comportamento de muitos humanos.


No entanto, não temos outro planeta como a terra para hospedar (até onde sabemos e alcançamos) e o colapso da terra significaria nosso próprio colapso. Não é difícil encontrar notícias que apontam para a diminuição dos níveis de poluição durante essa quarentena forçada pelo Corona vírus. Em Veneza, na Itália, as águas se exibem cristalinas e há peixes pelo cais da cidadeAnimais silvestres têm sido avistados onde antes só circulavam humanos.


Em meio ao caos sanitário e econômico que estamos vivendo, a natureza parece estar agradecendo pelo fato de o “humano vírus” ter entrado em estado de hibernação. Este agradecimento não se traduz apenas na repaginação da natureza que a torna mais aprazível aos nossos olhos.


Se por um lado há um vírus que nos fustiga, a qualidade do ar tem melhorado com menores emissões de poluentes como dióxido de carbono, o que favorece a diminuição de problemas respiratórios decorrentes da poluição. Acidentes de trânsito tendem a cair consideravelmente devido ao recolhimento humano.


Se um vírus tivesse um único hospedeiro à disposição e recebesse um sopro de consciência e racionalidade, ele com certeza hibernaria ocasionalmente quando percebesse fragilidade no organismo em que hospeda. 


Em meio a este recolhimento, temos a chance de atestar de forma ímpar o valor de uma companhia, ainda que essa se dê por meios virtuais. Uma oportunidade ímpar de conhecer melhor aquele familiar com quem mal conversávamos, pois andávamos sempre embalados pelo frenesi da urbanidade.


E uma oportunidade ímpar de conhecer a si mesmo, meditar, refletir, ler um bom livro, assistir a um bom filme, brincar com o seu animal de estimação... Tantas coisas pequenas que compiladas podem conferir às nossas almas uma vivacidade sem igual. Um ano ideal para refletir e para fazermos a mais rica das viagens que um ser humano pode empreender: uma viagem através da própria alma.


Não adentrarei a polêmica discussão da paralisação das atividades econômicas. Necessitamos de dinheiro. Para desde as questões mais básicas até as mais funestas como um sepultamento. Mas o dinheiro deve ser um meio e não um fim. O ser humano precisa de uma mutação evolutiva, mas não de uma face virótica.


E que não precisemos passar por crises, pandemias e colapsos para atingirmos essa evolução.

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1 Recados

  1. Um texto repleto de muita reflexão, circunspeção e sensatez. Estamos vivenciando um momento de marco histórico e experienciando a oportunidade de nos conhecer (conhecer a si mesmo) e conhecer o valor do nosso próprio lar, família e aconchego. Um discurso pujante.

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