Nua. Eu estava nua ali, naquele quarto branco, cercado de outros leitos. O frio atravessava a minha alma, chegando ao meu coração que, de repente, já não sabia mais o que estava sentindo, pois sentia demais.
Havia uma única janela acima da minha cama. O vidro estava empoeirado, mas me permitia enxergar um céu tão azul e cheio de nuvens que, se não estivesse ouvindo as batidas aceleradas do meu coração, poderia pensar não estar mais viva.
Mas eu estava. Sozinha, mas viva. Despida da cabeça aos pés, dos pés à alma. Nem meus pensamentos me pertenciam mais. Eu me senti um corpo pesado, gelado e sem valor, apenas tentando sobreviver ao que fosse preciso.
Eu estava em uma cama de hospital, mas sei que você, mesmo que nunca tenha estado em uma, já se sentiu assim: meio sem vida, meio sem rumo, totalmente à mercê do destino, sem fazer ideia do que viria pela frente.
É a que a vida tem dessas, quando você pensa que já pode respirar e sorrir, o próximo desafio bate à porta e diz “olá” com um ar gélido e insensível. Eu chamo isso de so-bre-vi-ver. Assim, separado mesmo, que é pra deixar claro que é diferente de viver.
A vida vai e vem. Muda de rumo. Pega outra rota. Volta para a estrada. Acelera. Desacelera. Mas continua indo. Você não sabe bem pra onde, mas suas expectativas se mantém de que dias melhores virão… mas e quando, no meio do caminho, é preciso retroceder uns passos e recomeçar depois da dor?
Sobreviver.
Não é como quando precisamos regar a planta pra que ela continue crescendo. Nem como comprar novos copos quando todos se quebram. Ou quando você falta um dia de aula pra poder estudar pra uma prova. É um nível a mais.
Sobreviver é quando o jogo chega a uma etapa completamente nova, sem aviso prévio, e você não tem outra escolha que não seja continuar.
Pelo caminho, você vê os cacos de vidro que vão cortar seus pés, mas continua.
Nota que a grama está alta e pode irritar sua pele, mas segue firme.
Sente o gelado da chuva numa noite de tempestade, mas não pode parar.
Você. Simplesmente. Continua.
Sobreviver é quando a outra saída pode te levar a perder tudo. É deixar de ver o riso do seu bem amado. Não mais sentir o cheiro de seu cachorro. É estagnar na carreira depois de tanto. É não responder mais as mensagens da sua melhor amiga.
Um celular que nunca mais será carregado. Um livro que não será mais lido. Calçados que nunca mais tocarão seus pés.
É quando, do outro lado, existe apenas o vazio daquilo que poderia ter sido.
Então, você continua.
E o que vem depois disso tudo? Depois de sobreviver à dor.. Tudo. Muda.
O ato de sobreviver implica muito. O que acontece com quem sobrevive a um trauma, a uma desilusão, a uma perda, a um amor?
Como uma borboleta, você se tranca numa casca até que se torne outra coisa.
E essa transformação começa de dentro pra fora. É como se juntássemos todas as nossas partes que foram se perdendo pelo caminho e colássemos novamente. Tá tudo ali, mas nenhuma dessas partes é a mesma de antes. Porque não há cola que possa restaurar o que não saiu ileso.
Não. Ninguém sai ileso do ato de sobreviver.
A tempestade passa. Mas quem atravessa o temporal nunca encontra a mesma pessoa esperando do outro lado.
Porque sobreviver não salva apenas a vida.
Também muda quem a vive.
