O copo de uísque que servia vinho

by - julho 20, 2020


copo de uísque



        Na casa de um grande apreciador de vinhos finos havia, em seu armário repleto de taças igualmente finas, um introvertido copo de uísque chamado John. John acabou parando no meio daquelas requintadas taças como um presente dado ao seu dono. 

        O dono de John, embora tenha recebido o presente de bom grado, quase não fazia uso do On The Rocks, pois era contumaz consumidor de vinhos da mais alta estirpe, o que não se aplicava a uísques.  O copo foi colocado ao final da prateleira reservada quase que exclusivamente para taças.

        Os amigos do proprietário de John se reuniam aos finais de semana em sua residência. A mesa em torno da qual se sentavam estava sempre adornada e bem equipada com saca-rolha, cortador de lacre e outras parafernálias tipicamente enófilas. Vez ou outra, a casa ficava cheia e todas as taças se esgotavam. Somente e tão somente nessas ocasiões, John era requisitado. E ao ser utilizado, sempre servia vinhos. 

        Nessas circunstâncias, os amigos do dono de John sempre jogavam par ou ímpar para saber quem utilizaria o famigerado copo, que era destinado, como é de se imaginar, ao perdedor. E lá ia John, ser utilizado em meio a resmungos e impropérios. Sendo sempre a última opção, John habitava tristonho a extremidade esquerda da prateleira povoada por taças. Porém, havia um casal de amigos, duas taças Borgonha chamadas Pierre e Marie, que sempre o incentivavam, tendo-o adotado na mais alta estima:

    
     Vamos John! Alegre-se! Você vai pegar a manha de servir um bom vinho, de exaltar os seus segredos e nuances para os humanos. Acredite, treine com afinco e será como nós! – Falava com entusiasmo a senhora Marie.

         Faça com que a bebida seja conduzida ao meio da língua John. Não ao fundo e nem à ponta entendeu? Ainda irão perceber o seu valor. – Pierre procurava animar John de forma mais objetiva. 

        John já havia tentado todas as sugestões dadas por Pierre e Marie, embora parecesse jamais agradar, pois era sempre preterido pelos humanos.

        Certo dia, o dono de John recebeu um telefonema de um amigo que há muito não via e que iria passar o final de semana na cidade. O amigo foi então convidado para ir à sua casa. Aceitou o convite prontamente, com a ressalva de que não era chegado a vinhos. Mas não recusaria um bom uísque. O dono de John disse não ter nenhum uísque de prontidão, o que não seria problema, pois seu amigo se prontificou a levar um excelente para confraternização.

        Na data marcada, o anfitrião chamou seu amigo para se sentar na bela e adornada mesa. Tomando seu vinho como era de costume, ofereceu à visita alguns petiscos bastante saborosos. O amigo lhe mostrou então a garrafa de uísque envelhecido, tipo Premium. Faltava apenas um bom copo para que fosse servido. O anfitrião se lembrou então de JohnSempre relegado para o segundo plano, havia chegado o momento de ser útil. 

        Ao ser aberto o armário, a expectativa das taças, como de praxe, é que uma delas fosse escolhida. Mas não naquele dia. Algo absolutamente atípico havia ocorrido. John havia sido a escolha. As taças ficaram em polvorosa. Várias horas depois, John é recolocado no armário. Curiosos, Pierre e Marie se entreolham. Pierre então toma a dianteira e pergunta:

    
     E então John, como foi hoje? O que me diz? Parece que finalmente perceberam o seu valor não é? Te falei que isso acabaria acontecendo! Que vinho você serviu? 

        – Foi maravilhoso! Finalmente eu pude sentir alegria ao servir uma bebida. E a satisfação do humano ao degusta-la. É a primeira vez que me sinto realmente útil. E a primeira vez que servir uma bebida foi para mim uma atividade prazerosa. 

         E qual vinho serviu? – Insistiu Pierre. 

         Não servi vinho. Servi Uísque. – Respondeu John esfuziante.

        Um burburinho ecoou por todo o armário. Nunca antes haviam servido algo diferente de vinho naquela casa. A situação gerou incredulidade em meio às taças. Olharam para John em tom inquisidor. A reação gerou certo desconforto em John, mas ele havia experienciado algo diferente. A sensação de servir uma bebida por prazer e de conferir igual prazer ao humano degustador da bebida.

        Ainda em meio à balbúrdia no armário, John foi novamente retirado pelo seu dono. As taças olharam atônitas. O Copo de Uísque foi novamente requisitado, em curto espaço de tempo. O que estava acontecendo? Todas se perguntavam. Passaram-se horas, dias, semanas, sem que John fosse recolocado no armário. Boatos de que ele havia sido descartado circulavam. 

        Pierre e Marie lamentavam a má sorte de John e se culpavam por não terem conseguido ensiná-lo a servir um bom vinho, com decência suficiente para que não fosse destruído. Atribuíram a felicidade de John, de semanas atrás, a um devaneio, uma fuga da realidade ao perceber que não tinha utilidade como copo.

        Passados alguns meses, Pierre e Marie estavam na mesa, sendo usados, como de costume, para servir vinhos para alguns convidados. Eis que se apresenta um homem, um que não costumava frequentar aquela casa. Ele carregava uma belíssima caixa que, ao ser posta sobre a mesa e aberta, revelou uma garrafa de uísque, uma pinça para gelo, um balde de vidro para gelo e um copo de uísque. Um copo que Pierre e Marie conheciam perfeitamente: John. Ao vê-lo, ficaram surpresos e muito contentes.

         Que alegria! Pensei que nunca mais o veríamos John! – Disse Marie radiante.

         Conte-nos John o que aconteceu. – Solicitou Pierre.

         Meu antigo proprietário me deu de presente ao seu amigo. Eu fui levado por um estranho, com bastante receio eu admito. Mas confesso que a minha curiosidade e vontade de explorar novas possibilidades era ainda maior. Em meu novo lar, fui colocado em meio a outros copos iguais a mim. Diferente do que ocorria nesta casa, por lá eu era requisitado com frequência para servir uísque ao meu novo dono e aos seus amigos. Em meio aos demais copos, não me sentia deslocado. Estava servindo aquilo que fui feito para servir. Agradeço imensamente tudo o que fizeram por mim. Mas foi preciso que eu mesmo encontrasse o meu propósito como copo. Eu encontrei a perfeita consonância entre trabalho e prazer. Quando estava vazio, sentia que não havia propósito para minha existência. Ao ser usado para servir uma bebida incompatível comigo, percebi que estava seguindo o propósito das taças de vinho e não o meu. Apenas ao preencher o meu recipiente com uísque é que encontrei o meu propósito.

        Muitos seguem os ideais e os passos de outras pessoas sem se questionarem qual é o seu propósito, qual líquido é mais adequado ao seu recipiente. Filhos não são cópias estritas dos pais. Pais não são modeladores absolutos dos destinos dos filhos. 

        É preciso observar e respeitar as individualidades. Seja qual for a bebida contida em seu copo, lembre-se que você pode esvaziá-lo e enchê-lo novamente. Não hesite em fazer isso caso necessário.

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2 Recados

  1. Que texto incrível !!
    Nos faz realmente refletir sobre nós e o outro. Parabéns

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