Melodramas,

#Proseando: Engole o choro, menina!

dezembro 06, 2018 Sâmela Faria 2 Comments


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Cresci ouvindo minha mãe me mandando engolir a droga do choro. Sempre pensei que ela estivesse só de implicância comigo, maluca ou fora de controle apenas. Com o passar do tempo, aquilo começou a me incomodar. Afinal, como se engole o choro? Perguntei uma vez a ela, que então disse: apenas engula. Continuei sem resposta.
Continuei sem resposta por muitos anos.
E então passei a engolir o choro sem perceber.

A primeira vez que lembro de ter acontecido foi quando me deram um apelido besta na escola. As lágrimas vieram com tudo, encheram meus olhos feito um balão quando estoura e expulsa o ar de uma só vez. Senti a fisgada no peito. Pensei que fosse me perder ali mesmo. Eu tinha tão pouca idade, não podia deixar que fizessem isso comigo. Então eu não chorei. Aprisionei minhas lágrimas como quem prende a respiração debaixo d’água. Ali eu engoli o choro.
Quando me chamaram para compor o teatro da escola que se referia às vogais do alfabeto, aceitei toda boba. Entenda: eu nunca fui de muitos amigos, sempre fui chamada de estranha. Compor essa peça, ainda que pequena, era muito para mim. A professora nos pediu para escolher qual letra queríamos ser, prontamente, escolhi a letra E porque é a primeira letra do nome da minha mãe. Quando nos colocaram na ordem das vogais, a professora me fez engolir o choro mais uma vez. Ela me disse que eu não poderia ser a letra E enquanto outra menina era a letra O. Sem entender, perguntei o motivo, então ela me disse que eu tinha que ser o O porque era “fofinha” como ele, enquanto a outra menina era “magrinha” como o E. Eu queria me rasgar de tanto chorar ali, mas eu não podia me deixar ser vencida, engoli o choro e fui o O mais fofo do mundo.
A vida foi passando. As “engolidas” de choro foram aumentando sem que eu sequer percebesse. Engoli o choro quando caí de bicicleta na frente dos meus amigos. Engoli o choro quando discuti com meus irmãos, quando brigamos e nos xingamos de vez em sempre. Engoli o choro quando alguém que eu gostava muito pareceu quebrar meu coração. Engoli a porra do choro quando fui apresentar um seminário na faculdade e fui corrigida pela professora grossa na frente de todos. Também tive que engolir o choro por não ter podido ir às inúmeras viagens da faculdade. Engoli o choro tantas vezes... por causa de um joelho ralado, dores físicas ou emocionais, quando fui assediada no ônibus na qual estava sozinha, por saudade de quem nunca vai voltar, por causa dos boletos vencidos, de sonhos não realizados, de desafetos por quem eu me afetava muito... engoli, simplesmente, o choro quando tudo parecia desmoronar.
Essa lição foi minha mãe quem me ensinou. Não, ela não queria que eu aprendesse a engolir o choro no sentido literal do termo. Ela queria me mostrar como é a vida. Como a realidade pode ser massacrante quando menos esperamos. Como o mundo te faz ser forte simplesmente por não ter outra opção ou te deixa mais fraca por você pensar que essa é a única saída. Minha mãe queria me mostrar quantas vezes eu teria que sugar forças de onde eu sequer imaginava que teria. Ela queria me dizer quantas vezes eu teria que levantar a cabeça e seguir adiante mesmo com os olhos embaçados das lágrimas que eu não deixaria cair. Não em qualquer lugar, não em qualquer hora.
Aprendi a colecionar o choro. Aprendi a colecionar a dor para que me permitisse senti-la quando eu quisesse. Aprendi que a vida é isso: lágrimas e mais lágrimas que vamos engolindo no dia a dia. Aprendi a controlar meus anseios e emoções. Fui obrigada a crescer sem me permitir desmanchar para uma plateia.
Mas, sabe, uma hora a gente precisa deixar que a tempestade prossiga. Não dá para abrir a cortina sem que, antes, o clima de dentro melhore. Afinal, o que nos permitimos ver lá fora faz parte de tudo aquilo que sentimos aqui dentro.
Engole o choro, menina, mas não deixe de se esvaziar quando for a hora.

2 comentários:

  1. Que texto foi esseeeeee, show de bola.
    Minha mãe também me ensinou a engolir o choro, ate que eu odiava chorar, hoje em dia me permito chorar quando é preciso e por quem merece minhas lágrimas, ando chorona ate de alegria, ha essas sao as melhores ne...
    Parabéns pelo texto lindona. Beijinhos.

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    Respostas
    1. Obaaa! Que bom que gostou, lindona.
      Não é? Com o passar do tempo, a gente faz amizade com as lágrimas, então ela passa a nos consolar.
      Ah, muito obrigada! Estamos às ordens. Hahaha
      Super beijo,
      Sâm.

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