Melodramas,

A dor, o riso amarelo e o seguir em frente

setembro 19, 2019 Sâmela Faria 2 Comments

Me sinto tão pequena às vezes... E não falo de tamanho, falo de espaço. Sinto que estou diminuindo dia após dia, sendo escondida, não sei, desmanchando. Sinto que a vida me cuspiu aqui nesse mundo e que eu não passei na fila dos aprovados. E por ter sido obscurecida, me sinto perdida e sem contexto, num fluxo que vai e vem, mas não me toca. Às vezes percebo que sorrio de verdade, e esses são os únicos momentos que me sinto.
Nas vezes em que ensaio um riso amarelo, ninguém percebe, mas eu mesma não poderia perceber... Porque me faço gelo. Fria e calculista. Especialista em demonstrar aquilo que não sente e incapaz de saber o que de fato está sentindo. Talvez eu tenha esquecido como é sentir. Talvez eu tenha me obrigado a caber onde não me cabe. Um espaço vazio, silencioso, incapaz de ser mais que isso. Porque ninguém nota, ninguém vê...

Mas eu estou com uma placa invisível, suplicando. Minha alma grita, mas só eu escuto. Eu grito em silêncio porque já não tenho mais voz. Não sei se sou capaz de falar sobre aquilo que ninguém quer ouvir. Me falam pra ser mais positiva e eu quase quebro por dentro. Quase desmorono ali, na frente de quem for. Ser positiva em um mundo em total caos é abaixar a cabeça. E eu nem sei mais onde a minha cabeça está.
O ar sempre me falta, mas finjo estar tudo bem.
Os segredos me corroem, mas eu não ligo. As palavras não ditas estão engasgadas e ninguém me deixa tossir. Faz barulho demais. Os vizinhos vão notar. Mas eu sou feliz, não sou? É isso que dizem. Diante de minhas paredes de vidro, a vida corre tranquila e normal. Feliz. Mas por dentro há os cacos do barulho encoberto.
Há os cacos do que não deixei quebrar por fora e aí feriu do outro lado. O lado de dentro. Se faz frio, sou obrigada a aguentar. Se faz calor, foda-se, você consegue. Se dói é porque você é forte. Se cicatrizou e deixou marcas, veja só, você conseguiu. São expressões de uma vida inteira em declínio, mas com uma capa protetora.
A gente não sabe o que o outro sente porque estamos ocupados demais sentindo muito escondido para poder notar. Todo mundo esconde a dor. Todo mundo finge que está tudo bem quando, na verdade, há um acúmulo de lembranças ruins, feridas internas e cicatrizes que nem sempre cicatrizam totalmente. Mas você chegou até aqui, não vê? Você passou por tudo isso e vai continuar, não é?
É que não temos escolha. A vida não te dá opções. Você vai porque todos estão indo... Mesmo que não façam ideia de para onde. Ninguém pergunta nada a ninguém justamente para não destruir a nuvem que paira sobre nós: onde a verdade se esconde até o fundo só porque não aguentaríamos continuar indo se todos soubessem da impossibilidade do amanhã em um hoje tão perdido quanto o ontem foi.
Mas eu indo. Você vem, ?
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Hey, como vai? Seus textos são lindos e possuem uma forma tão especial e diferente de se encaixar na vida de quem está lendo... Esse em especial me tocou muito por expressar exatamente o que estou sentindo no momento: "O ar sempre me falta, mas finjo estar tudo bem.". É isso que fazemos nos dias de hoje, colocando uma capa falsa de proteção e alegria para esconder o avalanche que está por dentro, engasgando com palavras não ditas porque ninguém quer ouví-las ou não temos coragem suficiente para dizê-las. É culpa do mundo atual, acho, que nos cobra ser forte e faz sentimentos que não sejam felizes parecem sinônimo de fraqueza.

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    1. Olá, Sarah! Fico muito feliz de ter gostado e que se identifique de alguma maneira. Acho que escrevi esse texto quando estava com todo esse peso, que você mesma citou, nas costas. Mas, sim, somos obrigados a ter coragem e nunca abaixar a cabeça... só que algumas vezes simplesmente não dá. Acho que temos o direito de não ser feliz o tempo inteiro (até porque felicidade se constrói). Enfim, agradeço seu comentário e espero que tudo fique bem para nós.

      Forte abraço.

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