Melodramas,

Declínio

março 01, 2019 Sâmela Faria 2 Comments


Sorrio por fora, mostrando dentes incertos, porém sempre ilustrando um rosto que desconheço. O rosto que esconde minha versão atual. A versão que, de dentro para fora, está aos pedaços... se desfazendo sem saber como se reconstruir.

Os dias vão sumindo de vista, já não vejo mais o dia amanhecer ou a noite chegar, pois me parece que se transformaram em uma única coisa, uma mancha ao longe, sobrevoando o oceano.

Sinto que nós se enterraram dentro de mim, amarrando tudo que sou a tudo aquilo que eu nunca quis ser. Mas sabe quando a gente se torna uma coisa e outra e quando vê já nem é mais aquilo?

Uma peça fora do baralho. Uma carta a menos, que faltou e ninguém percebeu. É como se tivessem construído uma ponte sem a outra ponta. Sem a ponta que te leva a algum lugar, mas que não te faz perceber que esse lugar é só miragem de uma mente em declínio.

Ando faltando. Ando deixando a vida rolar aos poucos, sem que eu vá junto. Às vezes penso que me perdi tanto que nem sei mais para onde ainda pretendo ir. Onde o caminho começa? Onde termina? Terá fim?

Sinto o aperto no peito. Sufoca tanto que perco o ar aos poucos. Vou me entregando sem nem ver até onde isso vai dar. Mas, de repente, sinto um soco no estômago. Como se me dissessem que eu não posso ir.

Então eu fico. Fico onde estou. Eu fico sem ter para quem reclamar. Me obrigaram a não falar. Me silenciaram com seus nãos. Me disseram que não posso deixar as palavras soltas por aí. Silenciaram minhas letras, minhas linhas, minha alma.

E então esperam que eu faça algo a respeito. Esperam que eu saia daqui onde me largaram. Onde disseram que eu tinha que ficar. Onde me proibiram de sair. Como sair de um lugar onde nunca estive de verdade?

Fico quieta na maioria do tempo, porque sei que minha mente fala mais do que consigo realmente dizer. O nó ainda está aqui. Sinto sua gélida forma. Tudo desatou e eu não vi? Como sair sem ter para onde ir?

Esperam que eu saia. Esperam que eu queira sair. Mas, como? Grito. Grito. Grito.

Como sair sem ter para onde ir?
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