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#Resenha: Meus Desacontecimentos - A história da minha vida com palavras (Eliane Brum)

outubro 26, 2018 Sâmela Faria 0 Comments


     Título: Meus Desacontecimentos: A história da minha vida com palavras

     Autora: Eliane Brum

     Páginas: 144
    Editora: Leya 

    Ano de publicação: 2014 (1ª edição)

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     Começo esse texto dizendo isso que: fui invadida. Mas tão invadida que não sei dizer o que é que restou de quem eu era minutos antes. Sabe quando você se vê, de repente, refletida em uma vitrine? Eu me vi refletida na escrita de Eliane Brum. Em Meus Desacontecimentos, Eliane se rasga. Em Meus Desacontecimentos, Sâmela se despedaçada. Onde fui parar eu depois que dali saí? Sei que não sou mais a mesma, pois ali me vi de outra forma.

     Eliane tem uma escrita avassaladora. Tão natural e ao mesmo tempo tão chocante. Revoltada e delicada na mesma intensidade. Enquanto falava de si, eu lia a mim. Enquanto lembrava sua infância, eu lia minhas lembranças. Enquanto falava de amor, eu lia meus desamores, desencontros e descontentamentos. Fiquei pensando: como será que ela sabia tanto de mim sem que eu mesma soubesse? Às penso que a escrita tem muito disso mesmo: incomodar e espetar no fundo da alma para te fazer embarcar no seu eu profundo.

     Ah, entendi: fui espetada também. Doeu? Sim. Magoou? Claro. Feriu? Com certeza. Mas também renovou. Mas também reconstruiu. Mas também brilhou dentro de minha imensa escuridão. Quando a autora falou sobre sua avó, lembrei da minha. De como eu gostava realmente de ouvi-la contar histórias, principalmente as de amor. E mesmo que ela as repetisse dia após dia, eu a ouvia, pois a cada vez ela contava de forma diferente. Eu pensava: o que vai mudar dessa vez? E no fim, nada mais era como antes, nada mais era da mesma forma. Acredito que seja um pouco disso: quando você conta algo pela primeira vez, tudo sai de um jeito para, dali em diante, quando o processo se repetir, sair de forma diferente. O tempo é único.



     Quando a autora falava sobre escrita, me remeti a quem eu sempre escondi. Cresci rodeada de enciclopédias na casa de uma tia próxima. Eu carregava aqueles livros enormes nas mãos, um de cada vez, só para poder lê-los. E foi lendo que decidi que queria escrever. E, desde esse tempo, a escrita já me intrigava, assim como intrigou Eliane. Eliane se fundiu às histórias que ouvia; Eliane se dissolveu nos relatos que escrevia. Não é que uma parte dela ficava lá, no entanto sua marca permanecia.

Esse trecho de seu livro me define totalmente em relação à escrita:

“Às vezes me perguntam o que aconteceria comigo se não existisse a palavra escrita. Eu respondo: teria me assassinado, consciente ou não de que estava me matando. É uma resposta dramática, e eu sou dramática. O que tento dizer é que, se não pudesse rasgar o papel com a caneta, ainda que numa tela digital, eu possivelmente rasgaria o meu corpo. E, em algum momento, o rasgaria demais...”

     Sinto que é isso, se não houvesse a possibilidade da escrita, eu me rasgaria aos poucos, até sobrar nada. Mas será que o que sobra é realmente nada? Até que ponto nos desprendemos do “resto” que sobrou de nós? Eliane mostra que ela nunca se separou de suas mágoas e sentimentos de infância. Quando fala de sua irmã, por exemplo. Eliane choca quando evidencia que ela não se sentia ela mesma, tudo o que lhe faltava era suprimido por um alguém que já não vivia, mas que ainda assim estava vividamente servindo de exemplo para si mesma.

     O luto que a autora descreve é forte, embora sua escrita revele uma delicadeza natural. Mas foi excesso. Foi o perfeito transbordar de si mesma.

“A percepção de que o mundo era um túmulo que me fundou”.

     Há delicadeza na dor, mas a maior questão é quanta dor há na delicadeza?

“A morte é um mundo sem palavras.”

     Disse ela, me desconstruindo internamente em meio a quem sou e a quem me propus a ser. Às vezes digo que sou aspirante à escritora, mas a verdade é que é meu coração quem me escreve. E no papel, eu me desmancho. Permito-me ser. Eliane se permitiu também.

Fiquei me perguntando se tudo isso era real ou não, como o exemplo em que ela deixa cair uma chaleira de leite nas pernas, mas consegui chegar à conclusão que isso pouco importa.  Afinal, nossa escrita é real, quando a história se concretiza por meio das palavras não importa se aconteceu ou não, importa que está acontecendo naquele momento. Talvez escrever seja isso também: transformar em realidade, transformar realidades.

 “Quando eu era criança, eu quase morria muito.”

     Eliane, se mostra em sua profundeza, nos fazendo sentir na pele toda sua emoção vivida.

“Eu tinha sido fechada dentro do túmulo, para viver entre mortos-vivos”.

     Consegue imaginar? Ela nunca se livrou dos mortos que viviam dentro dela. Às vezes penso que carrego comigo muito do que já não vive mais aqui, só que é difícil abrir mão daquilo que sempre foi parte de você, mesmo que isso te consuma aos poucos. Eu vi Eliane consumida.

Eliane transbordou tanto que descreveu em suas linhas toda sua trajetória vivida. Nos apresentou seu mundo de dentro, em meio aos seus trancos e barrancos, verdades dolorosas e lembranças inesquecíveis de uma vida inteira carregada com um enorme peso. Eliane nos disse tudo o que jamais conseguiu dizer antes. Sua escrita é a prova viva de que Eliane foi carregada pelas profundidades de sua mente, e ao mergulhar em seu abismo me encontrei habitando entre vãos que eu mesma permiti que se criassem.

     Quando terminei a leitura, pensei que estava afogando em minhas próprias desventuras, no entanto, eu estava liberta: agora eu podia ver o que antes guardei a sete chaves para que jamais encontrasse. E foi por meio de sua escrita que consegui me encontrar lá no fundo da caixa de memórias, me cutuquei, me tirei do comodismo tão bem costurado a minha volta, passei a enxergar beleza na dor, ainda que continue doendo.

     Em Meus descontentamentos, fui incomodada ao último para poder acordar da minha bolha. Estourei a bolha. Estou livre.
     Livre-se também. Leia Eliane Brum!

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