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Apesar do tempo


Houve um tempo em que ele andava sempre com pressa. O relógio em seu pulso mostra as horas mais corridas possíveis. Seus passos são pesados e ligeiros. Havia hora a cumprir e ele não podia perder tempo. Houve um tempo me que ele acordava antes do sol nascer para poder iniciar seu dia, longo e exaustivo. Todos os dias. Ele acorda já sentindo o cheiro do café dela. Ele encontra sua roupa já passada.. Seus sapatos com meias limpas. Após usar o banheiro, passa pela porta do quarto dos filhos. Então para por dois minutos. Não tem tempo a perder. Seu coração se aperta ao olhá-los dormir.

Ao chegar na cozinha, ele a encontra de costas, de frente para o fogão que ferve a água para o café. A vê agir com mais pressa, como se pudesse ser mais quente que o próprio fogo. Como se pudesse agilizar tudo. Ele diz bom dia, mas o que ele quer mesmo dizer é o quanto ele a admira. O quanto ele a quer por perto e está grato por seu café de todos os dias. Por suas meias limpas. Sua cama arrumada. Suas roupas lavadas. Sua casa organizada. Grato por sua família. Mas não são essas palavras que saem por sua boca. Ele não tem tempo a perder.

Toma seu café em silêncio. A escuta suspirar de preocupação antecipada. Percebe no olhar dela o quanto ela gostaria de que tudo fosse diferente. Que ele trabalhasse menos. Que ele pudesse estar mais em casa. Com ela e seus filhos. Ele lê isso em seus olhos, mas não diz nada. Ele não tem tempo para isso. Ele precisa ir. Agradece pelo café superfluamente e se despede dando um beijo em sua testa. Então ele nota seu sorrisinho de lado, tímido e desconcertante, mas tenta não pensar. Sabe que pode desistir de ir, mas não deve. Ele lhe diz que volta para o almoço e sai. Ela o segue até o portão. Ele está indo na mesma direção de sempre. Ela está no mesmo lugar de sempre. Eles estão em lugares opostos, com sentimentos diferentes, mas o que os une ainda está ali. Intacto.

Ainda no portão, ela o vê diminuir os passos antes de virar na próxima esquina. Com passos rápidos e cansativos, ele desacelera antes de sumir de vista e olha para trás. Ela ainda está lá. Talvez esperando algo mais. Ele ainda está ali, tentando não deixar transparecer sua vontade de voltar. Ela acena e manda beijo. Ele acena de volta e retorna o beijo. E o que eles não percebem é o quanto cada um desses gestos simples legitima aquele sentimento. Não um amor que sobrevive, mas que vive, apesar do tempo. Não um caso de amor inédito, mas uma lembrança de que existe amor no mundo. Apesar do tempo ligeiro, o amor permanece. Resiste.

Quando acorda, não sabe decifrar o que é sonho, realidade e eterna lembrança. O tempo que ele não podia perder, acabou se perdendo.

2 comentários:

  1. Uauu belo texto, e pois é as vezes perdemos tantos momentos bons por falta de tempo, devemos ser donos do nosso tempo e não ao contrário,devemos dar valor as pessoas q amamos pq o tempo perdido não volta atrás. Bjs lindona

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    Respostas
    1. O tempo perdido não volta, exatamente.
      Obrigada, lindona! Pela visita e por expressar sua opinião. Que bom que gostou!
      Some, não.
      Super beijo,
      Sâm.

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